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letras de liberdade

Blog com letras minhas e letras das leituras que vou fazendo.

letras de liberdade

Blog com letras minhas e letras das leituras que vou fazendo.

a primavera, este ano, começou a dois de abril. Da minha janela ouvi os gritos da revolução. Era por volta das dezanove horas, poucos minutos haviam passado desde que os sinos da igreja tinham dado as sete: romperam os grilos a anunciar​.

cores. Bom dia, diz o homem que entra no café. Uns respondem por palavras, outros, calados, acenam com a cabeça. O que entra mete-se com um desses que fizeram uma vénia com a cabeça, Olha para ele, hoje está todo de vermelho, De preto já vou eu no caixão, responde o visado. As cores falam melhor que os homens.

um dia de inverno pode ter aconchego. um deixar-se ficar no sofá pela manhã fora enquanto o sol entra por uma janela da casa. entra e dá umas palmadinhas nas costas: foste miserável, mas eu tanto visito bom como mau. e a palmadinha é para todos.

Falta sedentarismo na nossa relação com o tempo. A pressa de ir. A impaciência que chegue o depois. Gente que vive a correr, que vive, literalmente, a correr. O fast-tudo. Gente que se sente refugiada do presente. O presente, esse tirano, que nos obriga a escolher, que traz a picada mais forte das consequências das nossas escolhas passadas. Esse ditador, o presente, que é chuva e eu queria sol; que é trabalho e eu queria férias; que é criança aos berros e eu queria silêncio; que é realidade e eu queria utopia. É o futuro que queremos, o sonho americano, a terra nova, é para lá que queremos ir! Mas quando lá chegamos, ao futuro, afinal ele chama-se presente, esse ditador, que é sol e eu queria chuva; que é férias e eu queria trabalho; que é silêncio e eu queria ter uma criança à minha beira; que é realidade e eu queria utopia.

O nevoeiro teima em não se levantar, deitou-se sobre Provezende e aqui repousa, qual bela adormecida. Príncipe Sebastião, a ti imploramos, volta e beija-lhe os lábios para que essa bela se levante. Enquanto não chegas, ao sol não o vemos há semanas e o gelo instalou-se nas teias de aranha, outrora discretas, mas que hoje saltam à vista e espantam a freguesia. A aranha, danada para a brincadeira, leva à letra aquela história das oportunidades de vida nova e já comprou uns patins de gelo. Ao passo que o nevoeiro não se levantar, será giro vê-la patinar nas suas teias.