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letras de liberdade

Blog com letras minhas e letras das leituras que vou fazendo.

letras de liberdade

Blog com letras minhas e letras das leituras que vou fazendo.

vaidoso. Reparai nas poças de água que se formam depois de uma valente chuvada. Quando pára de chover, o sol limpa as nuvens, como nós limpamos o espelho embaciado pelo vapor do banho, e fita-se nas poças refletido. Penteia-se. Apara as longas barbas amarelas para não magoar ao dar-nos o beijo radiante de bons dias.

O nevoeiro teima em não se levantar, deitou-se sobre Provezende e aqui repousa, qual bela adormecida. Príncipe Sebastião, a ti imploramos, volta e beija-lhe os lábios para que essa bela se levante. Enquanto não chegas, ao sol não o vemos há semanas e o gelo instalou-se nas teias de aranha, outrora discretas, mas que hoje saltam à vista e espantam a freguesia. A aranha, danada para a brincadeira, leva à letra aquela história das oportunidades de vida nova e já comprou uns patins de gelo. Ao passo que o nevoeiro não se levantar, será giro vê-la patinar nas suas teias.

A maioria dos meus pares já partiu, o Verão terminou e eu fui das ultimas que ainda ficou por cá. Parto brevemente. Não queria ir embora sem antes me despedir de ti. O tempo passou a voar; ainda ontem a Primavera me trouxe, e hoje, já tenho o Outono à porta para me levar. Nós, as andorinhas, levamos a saudade de um beiral para uma telha; de uma telha para um poste, de um poste para um lampião. Levamos a saudade que o Outono tem da Primavera, para a trazer, em Fevereiro, renascida como esperança de um novo encontro.

Havia um pequeno homem que usava uma boina estranha, era incrivelmente grande e como que uma segunda pele preenchia-lhe toda a região frontal, região pariental, região occipital, e região temporal da sua pequena cabeça.

 

Na mesma vila do pequeno homem vivia o homem careca. Um dia deu-se o acaso de se encontrarem na sombra de uma oliveira os dois homens. O pequeno entretido a ajeitar a boina e o careca a fazer de conta que contava os pelos que não tinha na nuca. Passou uma mulher elegante, de classe social elevada e o homem pequeno tirou a boina para cumprimentar a distinta senhora e lhe dar os bons dias, assim mandam os bons modos.

 

O careca quase que deixava de reparar, apesar de nitidamente o ver, na calvície do homem pequeno, tão invejoso que estava de não ter uma boina para a poder retirar quando, por ele, uma mulher passasse, ou melhor se passeasse. Foi então, nesse momento, que da boca do careca saiu um seco, mas esperançoso, Afinal você também é careca. O homem pequeno riu-se e disse: O careca é você, foi a você que lhe puseram o nome. Eu sou apenas o pequeno homem. A mim ninguém me viu a careca, nem tampouco me deu a alcunha. A si todos lha vêem e algum lhe pôs o nome. Os burros não se chamam, chamam-lhes. O homem pequeno, concluiu dizendo: Esta é a sua história, e ela não é o que é; é o que alguém decidiu que ela seja.

 

Encontrado em ispyhorsecam.com